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Terraplenagem

Volume de terraplenagem no orçamento: como calcular e não errar

Campos Engenharia e Consultoria · 04/11/2026 · leitura de cerca de 10 minutos

O mesmo metro cúbico de solo não ocupa o mesmo espaço no terreno, no caminhão e no aterro. Esquecer isso é um dos erros mais comuns em quantitativos de terraplenagem: o volume que aparece no projeto não é o volume que o caminhão transporta. Veja como os estados do solo se relacionam, como fechar o balanço entre corte e aterro e como ligar cada serviço à composição do SINAPI, com um exemplo de projeto real.

Resumo rápido

  • Vn é o volume natural (no terreno), Vs é o volume solto (no caminhão) e Vc é o volume compactado (no aterro).
  • Fh (homogeneização): Vn = Vc × Fh. Faixa usual de 1,10 a 1,30.
  • Fe (empolamento): Vs = Vn × Fe. Valor típico de cerca de 1,25.
  • Volume de transporte: Vt = Vc × Fh × Fe.
  • O ponto de partida do orçamento é o volume geométrico do projeto, mas confirme com o projetista o que ele informou: a "diferença" corte − aterro da prancha não é o bota-fora.

1. O solo muda de volume

Ao ser escavado, o solo se solta e passa a ocupar mais espaço. Ao ser compactado no aterro, ele fica mais denso e ocupa menos espaço do que tinha no terreno natural. Por isso, um mesmo solo aparece com três volumes diferentes, cada um em um lugar:

SímboloEstadoOnde está
VnVolume natural (in situ)No terreno. É o volume geométrico do corte.
VsVolume soltoNo caminhão, depois de escavado.
VcVolume compactadoNo aterro. É o volume geométrico do aterro.
Três blocos mostrando o mesmo solo: 1.000 m³ compactado (Vc), 1.200 m³ natural (Vn) e 1.500 m³ solto (Vs), ligados pelos fatores Fh igual a 1,20 e Fe igual a 1,25
O mesmo solo em três estados, no exemplo de 1.000 m³ de aterro, com Fh = 1,20 e Fe = 1,25.

2. Fator de homogeneização (Fh)

O fator de homogeneização compara o volume natural com o volume compactado do mesmo solo:

Fh = Vn / Vc  ⇒  Vn = Vc × FhResponde: quanto de solo natural preciso escavar para cada metro cúbico de aterro compactado?

Com Fh = 1,20, cada 1,00 m³ de aterro exige 1,20 m³ de solo natural no corte. A faixa usual fica entre 1,10 e 1,30, mas o valor real depende do solo e da compactação especificada.

A conta tem uma base física simples: a quantidade de grãos de solo se conserva. Em termos de massa específica aparente seca (γd), isso leva a Fh = γd,aterro / γd,corte. Quando há estudo geotécnico, é assim que o Fh deve ser obtido.

3. Fator de empolamento (Fe)

O empolamento mede o quanto o solo incha ao ser escavado:

Fe = Vs / Vn  ⇒  Vs = Vn × FeResponde: quanto de volume solto sai de cada metro cúbico escavado?

Um valor típico é cerca de 1,25 (25% de empolamento), mas ele varia bastante conforme o tipo de solo.

Atenção à convençãoNeste artigo, os dois fatores são multiplicativos e maiores que 1. Algumas tabelas trazem o empolamento em porcentagem (25% equivale a Fe = 1,25) ou o inverso do Fh (fator de contração, menor que 1). Antes de usar qualquer valor de tabela, confira como ele foi definido.

4. Volume de transporte

Imagine que você vai compactar um aterro de 1.000 m³ e precisa trazer o solo de fora (empréstimo). Qual é o volume que os caminhões vão transportar? A conta vem de encadear as duas definições anteriores:

  1. O volume solto é o natural vezes o empolamento: Vt = Vn × Fe  (I)
  2. O volume compactado é o natural dividido por Fh: Vc = Vn / Fh  (II)
  3. Isolando o natural em (I): Vn = Vt / Fe  (III)
  4. Levando (III) em (II): Vc = Vt / (Fe × Fh)
Vt = Vc × Fh × FeVolume solto a transportar para formar um aterro de volume Vc.

No exemplo, com Fh = 1,20 e Fe = 1,25: 1.000 m³ de aterro → 1.200 m³ no terreno → 1.500 m³ no caminhão. O caminhão carrega 50% a mais do que o volume do aterro pronto.

5. O que o projeto informa (e o que não informa)

Daqui em diante, o artigo usa um projeto de terraplenagem real. A prancha de corte e aterro mostra, em planta, onde o terreno é escavado (vermelho) e onde é aterrado (verde):

Planta de corte e aterro de um projeto de terraplenagem, com manchas vermelhas nas áreas de corte e verdes nas áreas de aterro, seções transversais e curvas de nível
Planta de corte (vermelho) e aterro (verde) do projeto de exemplo, com as seções transversais. Deslize para o lado para ver a planta inteira.

A mesma prancha traz uma tabela de volumes por seção, com os volumes de corte e de aterro acumulados. Na última seção, ficam os totais do projeto: 1.239,43 m³ de corte e 1.080,84 m³ de aterro. A última coluna da tabela, "Diferença", é a subtração entre os dois acumulados.

Corte acumulado1.239,43 m³volume geométrico do projeto
Aterro acumulado1.080,84 m³volume geométrico do projeto
Diferença158,59 m³1.239,43 − 1.080,84
Totais da tabela de volumes do projeto, na última seção. A "Diferença" é só a subtração entre os dois acumulados.
A "Diferença" da prancha não é o bota-foraEla é só a subtração geométrica: 1.239,43 − 1.080,84 = 158,59 m³. Essa conta ignora o Fh. Com Fh = 1,20, o aterro exige 1.297,01 m³ de solo natural, e o corte, que tem 1.239,43 m³, não basta: faltam 57,58 m³. Lançar a diferença como bota-fora orçaria 158,59 m³ de sobra que não existe e deixaria de fora o empréstimo que a obra vai precisar.

Os volumes de corte e de aterro costumam sair das seções como volumes geométricos: o corte medido no terreno natural e o aterro no seu volume final, compactado. Mas nem sempre é assim. Algumas tabelas já trazem fatores aplicados (alguns softwares permitem isso no relatório de volumes), volumes empolados ou um total sem dizer em que estado está. Se você aplicar Fh ou Fe sobre um número que já tem fator, conta duas vezes. Antes de orçar, confirme com o projetista:

  1. O corte está em volume natural e o aterro em volume compactado?
  2. Algum fator (empolamento, homogeneização, compensação) já foi aplicado nas tabelas?
  3. A "diferença" é apenas geométrica, ou ele já fez o balanço com fatores?
  4. Como foi calculado o volume de limpeza e de qual área ele vem?

E registre a hipótese na memória de cálculo, por exemplo: "Quantitativos calculados conforme projeto, considerando que os volumes informados são geométricos."

6. Fechando o balanço entre corte e aterro

O balanço mostra se o corte basta para formar o aterro, ou se sobra ou falta material. Como o corte está em volume natural, a comparação é feita em volume natural:

  1. Pegue os volumes geométricos do projeto: corte (natural) e aterro (compactado).
  2. Converta o aterro em volume natural necessário: Vn,nec = Vc × Fh.
  3. Calcule o saldo: corte disponível − Vn,nec.
  4. Saldo positivo: sobra material, que vai para bota-fora. Saldo negativo: falta material, que vem de empréstimo.
Planilha, bloco 1: dados de entrada com volume de corte de 1.239,43 m³, aterro de 1.080,84 m³, Fh 1,20, Fe 1,25, distâncias médias de transporte de 0,50, 30 e 12 km e limpeza de 1.239,12 m³
Dados de entrada do exemplo, tirados do projeto, com Fh = 1,20 e Fe = 1,25 adotados empiricamente. Deslize para o lado para ver a tabela inteira.

Com esses dados, o aterro exige 1.080,84 × 1,20 = 1.297,01 m³ naturais. O corte oferece 1.239,43 m³, então todo o corte é aproveitado no aterro, não há bota-fora do corte e faltam 57,58 m³, que vêm de empréstimo (jazida).

Planilha, bloco 2: balanço de terra mostrando necessário de 1.297,01 m³, saldo de menos 57,58 m³, situação falta para empréstimo e Fh de equilíbrio de 1,147
Balanço de terra do exemplo, todo em volume natural. Deslize para o lado para ver a tabela inteira.

O Fh de equilíbrio

Existe um Fh em que o corte fecha exatamente com o aterro, sem sobra nem falta: Fh,eq = Vn,corte / Vc. No exemplo, 1.239,43 / 1.080,84 = 1,147. Se o Fh real for maior que esse valor, falta material; se for menor, sobra.

Planilha, bloco 5: sensibilidade ao Fh, com saldo de mais 50,51 m³ para Fh 1,10 e saldos negativos de 3,54 a 165,66 m³ para Fh de 1,15 a 1,30
Sensibilidade do saldo ao Fh: com 1,10 sobram 50,51 m³; com 1,15 já faltam 3,54 m³; com 1,20, faltam 57,58 m³. Deslize para o lado para ver a tabela inteira.

Repare como o resultado é sensível: uma variação de apenas 0,05 no Fh transforma uma sobra de 50,51 m³ em uma falta de 3,54 m³. É por isso que o Fh deve vir de ensaio, e não de palpite.

7. E a limpeza do terreno?

Quando o projeto traz um volume de limpeza do terreno (remoção da camada superficial), ele segue um caminho diferente: não forma aterro, então não entra no balanço e vai inteiro para bota-fora. O volume é geométrico (natural); aplica-se apenas o Fe para obter o volume solto que será transportado. O Fh não se aplica, porque esse solo não vira aterro.

No exemplo, a limpeza de 20 cm sobre uma área de 6.195,6 m² dá 6.195,6 × 0,20 = 1.239,12 m³ naturais, que viram 1.239,12 × 1,25 = 1.548,90 m³ soltos. Como o corte não tem sobra, o bota-fora total é só a limpeza: 1.239,12 m³ naturais.

Vale conferir se o volume de limpeza do projeto é coerente com a área e a espessura.

8. Transporte em m³·km

O transporte é medido pelo volume multiplicado pela distância média de transporte (DMT). Cada destino tem a sua DMT, e o total em m³·km é a soma dos trechos.

Esquema com um corte, um aterro, uma jazida de empréstimo e um bota-fora, ligados por setas que representam as distâncias médias de transporte DMT1, DMT2 e DMT3
Os trechos de transporte: corte → aterro (DMT1), empréstimo → aterro (DMT2) e corte → bota-fora (DMT3). O empréstimo só existe se faltar material; o bota-fora do corte, se sobrar. A limpeza também vai para o bota-fora.
Planilha, bloco 3: transporte por trecho com volume natural, volume solto, distância média e m³·km, totalizando 3.170,16 m³ soltos e 21.520,62 m³·km
Transporte do exemplo: 3.170,16 m³ soltos e 21.520,62 m³·km no total. Deslize para o lado para ver a tabela inteira.

Uma conferência útil: a soma dos trechos que chegam ao aterro (corte aproveitado + empréstimo), em volume solto, tem que ser igual a Vc × Fh × Fe. No exemplo, 1.549,29 + 71,97 = 1.621,26 m³, o mesmo que 1.080,84 × 1,20 × 1,25.

9. Ligando os serviços às composições do SINAPI

Com os volumes fechados, cada serviço do orçamento recebe a composição do SINAPI e o estado do volume certo. Esse é o ponto em que mais se erra: o mesmo solo é medido como natural na escavação, como solto na carga e no transporte, e como compactado na compactação. A tabela abaixo mostra como ficou o orçamento do projeto de exemplo (sem preços, que mudam todo mês):

ServiçoComposiçãoUnid.QuantidadeComo se chega
Limpeza mecanizada da área (camada vegetal de 20 cm)SINAPI 98525m²6.195,6 (área)Área da limpeza, tirada da planta
Carga do material de limpezaSINAPI 100978m³1.548,90 (solto)1.239,12 × 1,25
Transporte da limpeza até o bota-fora (12 km)SINAPI 93588m³×km18.586,801.548,90 × 12 km
Escavação e carga do corteSINAPI 107662m³1.239,43 (natural)Volume geométrico do corte
Transporte corte → aterro (via interna, 0,50 km)SINAPI 100938m³×km774,641.239,43 × 1,25 × 0,50 km
Escavação e carga na jazidaSINAPI 107662m³57,58 (natural)Vc × Fh − corte = 1.297,01 − 1.239,43
Material de jazida (argila)Item próprio, sem código SINAPIm³57,58 (natural)Mesmo volume da escavação; preço informado pelo orçamentista
Transporte jazida → aterro (30 km)SINAPI 93588m³×km2.159,1757,58 × 1,25 × 30 km (com valores sem arredondar)
Execução e compactação do aterroSINAPI 96385m³1.080,84 (compactado)Volume geométrico do aterro

Composições e códigos conforme o orçamento do projeto de exemplo (SINAPI 09/2026, Bahia, sem desoneração). Confira sempre a referência vigente e a descrição de cada composição.

Compactação com material e sem material

Repare na descrição da composição 96385: "exclusive material, escavação, carga e transporte". Ela mede só a compactação, e por isso o orçamento tem as linhas de escavação, material, carga e transporte à parte, cada uma no seu estado de volume: escavação em volume natural (Vc × Fh), carga e transporte em volume solto (× Fe).

Já uma composição de compactação que inclua o material pode trazer o empolamento e a redução de volume dentro do coeficiente. Nesse caso, a quantidade orçada é o volume compactado e aplicar Fh ou Fe por fora seria contar duas vezes. A regra é uma só: leia a descrição e o critério de medição de cada composição antes de lançar a quantidade.

Volume solto ou natural no transporte?No orçamento de exemplo, a carga e o transporte foram lançados em volume solto (Vn × Fe), e a escavação em volume natural. Confira o critério de medição das composições de carga e de transporte que você usar, porque algumas medem o volume solto e outras o natural.

10. Cuidados

  • Fh e Fe dependem do solo. Os valores deste artigo (1,20 e 1,25) foram adotados empiricamente, sem estudo geotécnico. Registre isso na memória de cálculo.
  • Confirme que os volumes do projeto são geométricos. Pergunte ao projetista antes de aplicar qualquer fator, para não contar duas vezes.
  • Não use a "diferença" da prancha como bota-fora. Faça o balanço em volume natural, com o Fh.
  • Não misture estados. Compare corte e aterro sempre no mesmo estado (aqui, o natural) e converta só no momento do transporte.
  • Leia cada composição. O que ela inclui e como mede o volume muda a quantidade que você deve lançar.
  • Este conteúdo é educativo. Ele não substitui o projeto nem a avaliação do responsável técnico.

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